sexta-feira, 19 de fevereiro de 2010

Aranhas de Porto Santo e Selvagens

Foram publicados recentemente no Boletim da Sociedade Entomológica Aragonesa duas pequenas publicações de carácter faunístico sobre as aranhas de Porto Santo e Selvagens, respectivamente.
Tive a oportunidade de visitar Porto Santo devido a um estude de impacto ambiental e de receber aranhas da Selvagem Grande capturadas pela equipa do Parque Natural da Madeira.
Foram encontradas 15 espécies não relatadas para Porto Santo e 9 para as Selvagens, o que ainda é considerável, dado o baixo número de amostras/exemplares obtidos para análise. Além disso, estou, juntamente a descrever uma nova espécie de Gnaphosidae nas Selvagens e existe material de 3 géneros diferentes de Porto Santo que penso consistirem em correspondentes (3) espécies novas de aranha para ciência, apesar de ainda só ter 1 dos sexos. É portanto provável que a secção de "Island endemics" de Porto Santo seja maior do que aquela que está representada no gráfico abaixo, e tal hipótese é sustentada pelo facto de Porto Santo ser uma das ilhas mais antigas do arquipélago da Madeira e portanto ter passado mais tempo, o que poderá ter levado ao aparecimento de novas espécies.De notar também que a fauna das Selvagens não partilha senão uma espécie com a fauna endémica da Madeira, e mesmo essa não está determinada com toda a certeza já que a descrição original de Zimirina lepida é bastante antiga e não há bons desenhos disponíveis, bem como a descrição do macho. Mas é um facto que se apresenta como lógico se tivermos em conta as distâncias das Selvagens em relação à Madeira (300 km) e às Canárias (180 km).
Também de algum interesse foi o aparecimento de Synaphris saphrynis na Selvagem Grande, sendo que esta espécie foi descrita de Espanha Continental! Como as estruturas do palpo masculino são de difícil observação à lupa binocular foram efectuadas fotografias de SEM e como se pode comparar com a descrição original aparentam não existir diferenças entre os espécimes. E como há 3 espécies descritas das Canárias (o seu estatuto taxonómico ainda está por ser confirmado por outros investigadores além do taxonomista que descreveu as spp), o facto de uma espécie de 2 mm ter aparecido num rochedo no meio do Atlântico e em Espanha Continental é no mínimo intrigante.
De salientar também que muitas das spp que se revelaram como novas para estas ilhas são spp comuns e tal facto só ilustra o quão mal estão ainda conhecidas as aracnofaunas das nossas pequenas ilhas. Futuras expedições deverão revelar mais novidades.

sábado, 6 de fevereiro de 2010

Retro gaming II

Espaço e altura para deixarmos um pouco o mundo aracnológico e voltarmos atrás no tempo dos computadores que tinham jogos que carregavam com gravador de cassetes.
Menos conhecido que o Frogger, que mostrei num post anterior, há um jogo que fazia as delícias do pequeno Crespo: o Chuckie Egg.
Neste jogo somos um boneco que tem de colher todos os ovos presentes no mapa, saltando de plataforma em plataforma e desviando-se das aves que os tentam defender (podem ser gansos, patos, avestruzes porventura, mas efectivamente isso não interessa).
A beleza deste jogo está também em algo que não consigo mostrar por aqui, que é o som do jogo. Cabe ao leitor experimentar por si mesmo, e das duas uma: ou não se consegue ouvir nem mais um minuto do jogo ou então é uma comédia total e fica-se viciado a jogar, ao som do subir de escadas tiritante e dos saltos.
Aqui o link para a versão mais fiel do original Chuckie Egg.
Para voltar ao nível inicial depois do "game over" pelos vistos é preciso recorrer ao f5/refresh, já que a página reinicia o jogo no nível onde ficaram, quando começam a jogar novamente.
High score: Nível 15, 35.740 pontos (19.II.2010)
Para as meninas que não aguentem com o som old-school do jogo aqui uma versão mais pipi do Chuckie Egg. (o meu score é feito na versão old-school)

terça-feira, 12 de janeiro de 2010

@ RMCA, Tervuren

Já estou em casa mas aproveito para mostrar ainda duas Phoroncidia que vi no material da Etiópia que andei a separar. Uma delas assemelha-se bastante à nossa P. paradoxa, disfarçando-se de uma simples e singela poia. Porém, encontrei uma outra espécie deste fabuloso género de minúsculos Theridiidae, que possui uns espinhos engraçados.
Bem, chegou ao fim a minha estadia de 3 semanas aqui no RMCA.
A lupa ja esta desligada e toda a gente ja foi para casa.
Eu vou dentro de meia hora também, senao fico ca fechado dentro e ja nao volto para PT tao cedo...
Toda a gente aqui foi prestavel e simpatica comigo, especialmente o chefe aqui do lab, o Rudy. Ficou apalavrada uma expediçao ao litoral português para procurar a Donacosa merlijni, um licosideo interessante que ele encontrou no litoral do sul de Espanha.
Amanha a ver se ainda tento mais umas quantas caches em territorio belga.
Deverei colocar mais algumas fotos de uma ou outra aranha quando voltar a PT, ja que, nao estando no meu cpu, nao tenho o tempo e recursos informaticos decentes para meter aqui fotos em boas condiçoes.

Na foto uma Afrarchaea godfreyi, da familia Archaeidae, que so come outras aranhas e que possui uma morfologia altamente atipica com queliceras e cefalotorax altamente modoficados! Estas belezas da Natureza so existem em alguns pontos da Africa austral ou em Madagascar.

E um salticidae que mimetiza escaravelhos? na é todos os dias que se encontra. Pachyballus sp. da Etiopia.

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Quarta-feira da minha ultima semana no RMCA:


Ja falta pouco para voltar e por agora ja nao preciso de ver mais amostras, embora o faça regularmente. Ontem e antes de ontem estive a fotografar as duas especies de Gnaphosidae que estou a descrever e hoje vou conhecer mais umas familias que me sao desconhecidas. Estou constipado, e ontem entao estava mesmo mal, hoje ja estou melhorzito. A temperatura voltou a descer e hoje de manha os carros e as sebes tinham um tom esbranquiçado mas nada de muito notorio, se houver precipitaçao nos proximos dias ainda apanho neve novamente quando me for embora. A ver se tiro umas fotos de animais fabulosos antes de ir embora para vos mostrar alguma coisa do que andei a ver, pelo menos o Pachyballus tenho que meter aqui.

No fim-de-semana passado tive mais um dia de geocaching intenso no sabado, com 18 km (a chuva miudinha) nas pernas e 3 caches encontradas em 3 tentadas. So uma teve contornos de ser algo mais que uma cache facil dado o local, mas o relevo aqui é praticamente nao-existente, por isso... nao se pode pedir muito. No domingo fui a Antuerpia encontrar-me com a Raquel e amigos dela (a entidade surreal chamada To Zé nao apareceu va-se la saber porquê), tambem havia chuva e penumbra pelo que o passeio em si valeu pelo conhecimento de alguns pontos interessantes da cidade dos diamantes, mas efectivamente prefiro um passeio pela Serra de Aire e Candeeiros do que isto. Foi barata a viagem de comboio Bruxelas-Antuerpia, 7 euros e tal, porreiro.

Ontem houve foto dos cromos aqui das aranhas e tudo! Os 2 da esquerda estudam Oonopidae, minusculas aranhas (algumas couraçadas, com scutum) de 2 mm no maximo que andam nas cascas de arvores ou debaixo de pedras. Yours truly ao meio e ao meu lado direito o boss aqui do sitio o RUdy Jocqué, especialista em Zodariidae, Linyphiidae e Ctenidae, principalmente. O ultimo da direita é o Benoit do Burundi cujo primeiro nome nao me atrevo a pronunciar, e que esta a trabalhar com novas spp de Zelotibia (Gnaphosidae, ground spiders).

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Quinta-feira da minha segunda semana no RMCA:

Finalmente consigo aceder ao meu humilde blogue a partir do cpu do museu!! Nos primeiros dias quando tentava aceder isto ficava bloqueado e fechava o site...

A neve ja derreteu nas ruas desde ha coisa de uma semana atras pelo que ja nao ha neve nas ruas para enfeitar. no passado fim-de-semana ainda fui fazer umas caches nas redondezas (ou pelo menos procura-las...) e ainda havia neve nos campos, especialmente no Arboretum de Tervuren, um paraue gigante com arvores plantadas em seccoes de tal modo a fazer lembrar as diferentes partes do mundo com floresta temperada. Foi muito fixe, ja que nunca tinha visto sequoias e sao, de facto, impressionantes (Sequoia sempervirens a mais alta e Sequoiadendrum giganteum a mais grossa), tal como uma catita plantaçao florestal de Araucaria araucana. A cache foi encontrada depois das devidas voltas pelo Arboretum nevado, ja que para termos as coordenadas finais tinhamos de encontras as placas de algumas das diferentes especies de arvores (ainda dei umas voltas a procura do Fraxinus americana...).
Depois tive a pessima ideia de ir tentar outra cache que ainda ficava mais longe de Tervuren q esta do Arboretum e como era multipla, tungas, mais uns quilometros...
Foi complicada esta fase do dia, pois nao podia andar muito rapido por causa da/o neve/gelo que estava nos caminhos e no final nao a encontrei, grrrr...
No final da caminhada estava estafado e la fui eu comer uma pasta ao restaurante italiano de Tervuren, que so tem empregados italianos (Prego, signore!).
Depois no domingo ainda decidi ir tentar outra multipla que pensava que nao ia dar grande trabalho, pfff, puro engano! Acabava sempre por ir parar a caminhos demasiado enlameados para serem percorridos (sim, a neve derrete e transforma-se em agua) e acabei por logar um not found (again). No conjunto dos 2 dias fiz 26,5 km, o GPS nao engana. Mas acho que o proximo fds vai ser mais relax, ja que estou a ver se combino um encontro com a Raquel Cunha por Antuerpia.

Por esta altura ja arranjei mais uns artigos para me cultivar aracnologicamente e tambem uma copia do livro Spiders of the World e hoje encomendei uma copia do Gnaphosidae Genera of the World, que é uma boa peça de bibliografia aracnologica.
Tenho visto mais umas quantas fabulasticas aranhas nos ultimos dias e se tivesse sorte e me aparecesse um macho de um primo dos Deinopis (que vos disse para ir "google-search-ar"), um Menneus, provavelmente ate poderia descrever a espécie ja que é um genero microdiverso (3 spp.) e o Jocque atirou isso po ar como quem mostra abertura pa coisa. As duas femeas de Menneus que apareceram possuem um tuberculo no abdomen e sao bastante mimeticas, além de serem também Deinopidae, as aranhas que atiram a sua teia as presas, mas por enquanto, n'as pas de machos.
Por outro lado ontem veio aqui o Jan Bosselaers, um outro aracnologo, e ele gostou do que lhe mostrei e deveremos iniciar 2 artigos em conjunto, revisao iberica ou portuguesa (dependendo da fcilidade de comunicaçao com nuestros hermanos) do genero Apostenus (Liocranidae), com descriçao de nova espécie, e revisao iberica ou tuga (same again) da subfamilia Phrurolithinae (ant-mimics nao mirmecofagos da familia Corinnidae), tambem com descriçao de uma new species. Alem disto, um tipo tambem muito simpatico.

Devo dizer tb que um gajo fica humilde quando esta a processar aranhas africanas... Ao passo que, qd se estao a identificar aranhas tugas se fica contente quando se encontra algo de novo, aqui ficamos contentes quando encontramos uma espécie ja descrita ja que isto ainda esta quase tudo por descrever...

Bem, se isto se mantiver, pode ser que consiga postar novidades com mais regularidade embora ja falte menos tempo para voltar pa PT...
(eu sei que tenho pontuaçao e acentuaçao a falhar e italicos e assim mas o tempo urge e ainda vou ver mais umas aranhas antes de sair daqui ja que so posso estar no museu ate as 18:30 senao fico ca fechado dentro!)

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Bem, tenho de ser rapido que ja so tenho 15 minutos aqui nq biblioteca de Tervuren.
Este é o terceiro dia aui na Bélgica. A viagem no domingo passado correu bem. Foi engraçado descobrir a "pousada" onde estou, até poraue tal me obrigou a percorrer ruas nevadas! Està tudo nevado por aqui! Nunca tinha estado numa cidade nevada apesar de jà ter andado na neve aqui e acolà, especialmente no Gerês (vejam post do fim de ano). Dada a minha vocação mesmo assim prefiro a neve na montanha do aue no betão mas pronto, é sempre diferente...
Ha bocado disse pousada entre aspas porque na verdade aquilo mais se assemelha à casa de uma senhora que tem para la uns quartos vagos e deve ter uma espécie de contrato com a malta la que organiza estas bolsas.
Ontem foi o primeiro dia la no museu e o chefe la do sitio é um fixe, chama-se Rudy Jocqué e cada vez q me lembro disso vem-me à cabeça a cabeleira farta do jogador de futebol alemão Rudy Vohler ou um sketch do Big Train hilariante em que um tipo vai visitar um amigo que tem um cão gigante e lee fica a olhar pasmado durante o sketch todo (o cão chamava-se Rudy).
Tem sido muito prestàvel o homem e hoje ja me meteu a processar aranhas da Etiopia à morfo-espécie. Ja comoecei a ver coisas muito interessantes que nunca tinha visto como ogre-faced-spiders (google search por Deinopis) que atiram a sua teia à sua presa ou daquelas aranhas espinhosas (google search por Gasteracantha).

(amanhã vou tentar continuar isto ja q a minha hora esta a acabar)

domingo, 3 de janeiro de 2010

Fim de ano @ Gerês

Este ano tive a oportunidade de passar o ano de um modo bastante aventureiro.
Fui convocado mais a Sandra pelo aracno-chefe Pedro Cardoso para ir com ele, a Clara e mais 2 amigos (Álvaro e Guida) até ao Gerês, caminhar pela montanha até cair para o lado. As previsões meteorológicas não eram as melhores mas foi com uma mentalidade persistente que nos aprontámos para esta aventura.
Saímos de Coimbra todos juntos no dia 30 pela tarde e ficámos instalados numa Pousada do lado espanhol em Lobios, já que estava tudo cheio do lado português quando tentámos efectuar a reserva.

Dia I (31 de Dezembro):
O plano de festividades inicial levar-nos-ía até à Serra da Peneda, começando a partir do Santuário de Nossa Senhora da Peneda.
Pelo caminho, ainda passámos pela localidade de Castro Laboreiro, berço da conhecida raça de cão com o mesmo nome e, pudemos encontrar alguns imponentes exemplares caninos pela borda da estrada.
Começámos aí pelas 10:30 da manhã (?) debaixo de chuva grossa e preparámo-nos o melhor possível. No meu caso, e apesar de ter umas sapatilhas/botas semi-impermeáveis, eram as extremidades as únicas que sofriam, mas assim que começámos a subir encosta acima o frio desaparece e a caminhada começa. Em muitos momentos o trilho mostra vontade de ser regato e os pés têm de ser colocados com cuidado para não escorregar (grande invenção essa dos batons de caminhada!). Depois de chegarmos a mais ou menos 1000 metros de altitude eis que a chuva se condensa e se transforma em neve. Nunca tinha visto nevar, apesar de já ter estado em locais nevados... Debaixo de um pequeno nevão loguei a cache Stairway to Heaven e prosseguimos em direcção a São Bento do Cando. Depois de muito calcorrearmos chegámos a um ribeiro que corria forte no vale que nos separava da povoação e como a travessia se afigurava demasiado perigosa e arriscada, decidimos voltar para trás. Grande seca, voltar para trás aqueles quilómetros todos... (?) Não, puro engano, ao subir a encosta do vale até uma razoável altitude, reparámos que a neve cobria agora quase todo o piso que anteriormente pisávamos, fosse ele castanho, verde ou cinzento. E durante a maior parte do regresso a grande altitude, o vento era pouco e a neve caía calma e vagarosamente pelo que a beleza da paisagem era indescrítivel e apreciada por todos como se tivéssemos sido presenteados pela mãe Natureza pela molha e esforço inicial. Regressámos aos carros no Santuário pelas 16 da tarde, ainda sem almoçar nada que fosse digno da designação de almoço, e apesar da fome existir em todos, não nos fazia percorrer os últimos metros em jeito de sacríficio, tal era a brutalidade dos cenários com que nos deparávamos.
Caminhada total: mais ou menos 12 km e subida até 1050 metros mais ou menos.
Dia II (1 de Janeiro):
Devido ao imperfeito estado de saúde do Pedro (o jantar caiu-lhe mal, a carne não devia estar fresca), no 1º dia do ano fizemos o percurso mais leve de todos os que tínhamos na mira. Fomos até Vilar da Veiga e fizemos o trilho das Silhas dos Ursos que ainda assim nos levaria até aos 1000 metros de altitude sensivelmente. Ora, antes de mais o que é uma silha? Era basicamente um grande calhau de granito com um topo liso onde eram colocadas as colmeias para que os ursos não lhes pudessem chegar. É claro que agora não existem ursos no Gerês, mas as silhas lá permanecem, mesmo sem as colmeias... Este percurso continha uma cache múltipla escondida na montanha, e a busca da mesma foi o que liderou a caminhada até ao seu destino.
O declive a vencer não foi tão acentuado como no dia anterior e o São Pedro esteve mais porreiraço com a malta pelo que só apanhámos uns chuviscos já na parte final da caminhada. Parámos para almoçar no ponto mais alto do percurso com uma bela vista sobre os vales. Como disse o Álvaro: "Nós somos uns privilegiados por almoçar num sítio destes." Findada a refeição, altura para prosseguir, encontrar e logar a cache, para depois decidirmos se continuávamos em frente até ao Campo do Gerês ou se voltávamos para trás até aos carros. Um pequeno calhau de granito decidiu por nós e lá fomos a descer os vales até ao Campo do Gerês. Ainda tivemos que atravessar alguns ribeiros de pedra em pedra, com todo o cuidado para ninguém cair à água, mas tinha mesmo que ser já que não havia outro caminho; num caso em que a água corria com alguma força esta travessia fez subir os níveis de adrenalina no sangue de todos, mas correu tudo bem, e no final da caminhada os meus pés estavam secos. Chegados ao Campo do Gerês, altura para recuperar forças com um cházinho de menta e uns Goodies num café local, antes de ir buscar os carros para irmos jantar num restaurante localizado na mesma povoação.Já depois do jantar, e quando já todos pensávamos no banho quente enquanto regressávamos de carro para Lobios através da Mata de Albergaria, fomos presenteados com um bónus da Mãe Natureza já que um rabo felpudo se atravessa à frente dos nossos carros. E quando todos julgávamos que já não voltaríamos a ver o dono do rabo felpudo eis que, curiosamente, uma pequena raposinha vem ao encontro do nosso carro, e depois de nos fitar durante uns segundos, se volta a dirigir para o mato. Foi um encontro que deliciou os presentes, que estavam todos a lidar com os incontáveis buracões presentes na estrada de terra batida que passa pela Mata de Albergaria. Chegados à pousada, xixi - cama.
Caminhada total: talvez mais uns 12 km

Dia III (2 de Janeiro):
Para o último dia estava guardada a caminhada mais extensa, mas nem por isso a que tinha declives mais acentuados. Do lado espanhol, fomos fazer o trilho da Mina das Sombras, que nos levaria até às r
uínas da Mina que fora usada para extrair volfrâmio para as blindagens dos variados objectos bélicos usados na 2ª Guerra Mundial. Ainda andámos às voltas até encontrarmos o estacionamento numa igreja de pedra, mas acabámos por passar por um pequeno grupo de cavalos que estavam aparentemente a vaguear pelos campos, sem dono, e comunicámos com um nativo que andava numa caçada e nos indicou o caminho certo. Depois de chegar à igreja, lá começámos a calcorrear montes em direcção à Mina das Sombras. O caminho ficava num vale que serpenteava pela montanha e que nos oferecia constantes cascatas e regatos para observar e saltitar, respectivamente. À medida que subíamos em altitude, o cansaço acumulado começava a fazer-se notar e eu e a Sandra fomos a um ritmo mais lento que os trekkers mais experientes que nos acompanhavam. Foi de facto, uma bela caminhada. No Gerês, no Inverno, tudo é água. O chão que noutras alturas está seco transforma-se em água, as cascatas cospem com raiva e a força dos rios impõe respeito. Já bastante perto da mina, voltamos à neve. A chegada à mina, porém, não foi lá muito do meu agrado, porque depois de saltar tanto regato e poças para manter os pés secos tinha que passar por um chão em forma de charco, já que não havia local onde meter os pés sem os levar à água, e pronto, tanto esforço e lá estou eu de pés molhados, novamente. Isto porque a quantidade de água que saía da mina era tanta que todo o local estava encharcado. Parámos nas ruínas para almoçar qualquer coisa e entreguei o GPS à Sandra para ela ir procurar a cache que estaria à entrada da mina, juntamente com o Pedro, já que o grau de impermeabilização deles era maior que o meu. Ainda assim, não dava para entrar na mina e a cache lá ficará, para uma outra oportunidade. Depois de ingerir alguma power-food lá começámos a rota de descida, e como parar é morrer, especialmente com patas molhadas, senti-me com energia novamente, e tal também se terá devido aos 2 triângulos de Toblerone gigantes que me foram oferecidos pelo Álvaro e pela Guida. Ainda passámos por 2 espanhóis e alguns tugas (eu não vi os tugas, estavam dentro de um edifício que estava a meio caminho e como ía à frente nem reparei que estava lá gente), mas deviam ser "meninas", já que encontrámos um jeep estacionado uns metros mais à frente. No final, chegados aos últimos metros destes 18 km, já pensávamos no que se seguiria: uns banhos no spa natural que existe na povoação de Bubaces. Então lá fomos de volta à pousada, buscar a roupa adequada, e já em Bubaces, aí nos pusemos de molho durante cerca de duas horas, para curar o desgaste físico efectuado nestes últimos 3 dias. Chegou a chover enquanto lá estivemos mas era como nada se passasse no resto do mundo...
No dia seguinte era altura de ir embora e voltar a casa. Nos últimos relances que tivemos do Gerês, as nuvens baixas que se deslocam por entre os vales e as quedas de água que se vêm regularmente foram a despedida da Natureza invernal desta montanha, que nos proporcionou 3 dias de exercício físico intenso e que, juntamente com a boa companhia fez com que esta passagem de fim de ano se tornasse um dos pontos altos de 2009 e de 2010.

Reminder: comprar luvas e calçado 100% impermeável para a próxima aventura do tipo.
Nota: batons de caminhada dão, de facto, um certo jeito... :)

terça-feira, 8 de dezembro de 2009

Geocaching @ Condeixa

Já tínhamos apalavrado há alguns tempos tirar um dia para andar pelos arredores de Coimbra e fazer geocaching juntamente com o Ludgero, a Inês e a Joana. Neste fim-de-semana prolongado ou feriado, se preferirem, surgiu a oportunidade de o fazer e, apesar de a Sandra estar um bocado indisposta, não era nada que impedisse a aventura e lá metemos provisões na mochila e seguimos em frente. Por sorte as previsões meteorológicas não eram muito más e o tempo não nos pregou partidas. Decidimos ir para a zona de Condeixa, pois ainda havia aí algumas caches no meio do campo por fazer, entre as quais estava uma que descansa escondida nas Buracas de Casmilo, e que já tínhamos debaixo de olho há algum tempo, e da qual faríamos o ponto alto do dia (mais tarde verificámos que foi de facto o ponto alto, mas não apenas por ser uma paisagem fantástica...).

Para aproveitar o dia, decidimos partir de manhã da Praça da República pelas 9:30. Toda a gente pontual, e lá fomos nós a caminho, pelo IC2.

A primeira paragem foi num simpático monte onde está a igreja da Senhora do Círculo, que, na verdade em si não é nada de mais como monumento, já que foi restaurada e modernizada de uma forma bastante típica. O monte em si, por outro lado, é um local bonito para se estar apreciando as belas vistas da Serra do Sicó de um lado e do Baixo Mondego do outro.
Bem, quanto à cache em si devo dizer que não foi tão fácil dar com ela quanto deveria ter sido já que fomos todos procurar para locais indevidos, induzidos em erro pelo GPS. Depois de nos introduzirmos aos Quercus coccifera (vulgo, carrascos) presentes na zona (com os quais viríamos a ter novas aventuras mais tarde) durante um bom bocado, lá voltámos ao ponto de partida e - voilá! - eis que a Inês dá com a cache! Afinal, estava logo ali, no último sítio onde procurámos...

De regresso ao bólide, a próxima paragem eram as Buracas de Casmilo. Ora, para lá chegar já foi uma aventura em si, já que sempre que nos deparávamos com uma bifurcação, invariavelmente tomávamos a opção errada... Depois de várias ajudas de nativos, e até problemas de engarrafamento no meio de caminhos de pedra devido a uma miscelânea de gado caprino e ovino, lá encontrámos o Vale das Buracas! Estas cavidades na rocha esculpidas pelos agentes erosivos ao longo de muitos e muitos anos originou locais que desafiam a imaginação. Como por exemplo a Joana disse: "agora entrava para ali um tipo de espada para combater um dragão" (ou qualquer coisa do género). Depois de nos maravilharmos com a grandiosidade do local e já termos experimentado o excelente eco que havia no local com vários comentários idiotas gritados em voz alta, decidimos ir à nossa busca. Como o GPS apontava para cima de uma das buracas, e porque não encontrámos à primeira vista local para escalar, decidimos ir à volta já que havia um trilho que subia o flanco da buraca. Bem, lá subir subia, mas a verdade é que não subia para onde precisávamos... Continuámos e continuámos, até não dar mais, altura em que começamos a escalar um pouco. Em cima do lapiás, coberto de mato denso e alto depressa nos apercebemos que não era este a rota de aproximação à cache, certamente. A progressão era lenta, já que tínhamos que abrir mato com os braços e pernas, e ter cuidado onde meter os pés pois fendas é o que não falta em formações de lapiás, e depois de continuarmos um bom bocado (de tempo, não de espaço) naquele matagal e de nos "regozijarmos" de ter aumentado a dificuldade de uma cache 3,5 para 4,5 ou mesmo 5 (numa escala de 1 a 5), decidimos voltar para trás, já que a progressão tornava-se impossível a certo ponto. Para agravar a experiência, o Ludgero bateu com o joelho numa pedra, quando já estávamos no regresso, pelo que tivemos que redobrar a calma e cuidado com que progredíamos no mato e no lapiás. De volta à entrada da buraca, a Sandra imediatamente achou umas escadinhas por onde deveríamos ter trepado inicialmente... Isto de nos metermos pelo caminho errado já aconteceu tanta vez que já começo a deixar de ficar supreendido... Arranhões, espinhos e estafa para nada, quer dizer, para mais tarde recordar, em amena cavaqueira com terceiros, porventura. Ainda antes de subir toda a gente, facilmente a Sandra encontrou a cache, logámos e descemos para almoçar, para repôr as forças, já que depois desta, havia mazelas a debelar por entre as hostes.
Almoço concluído e estávamos prontos para continuar. O próximo passo seria a cache do Moínho do Outeiro, que estava muito perto das Buracas de Casmilo. Depois de passarmos pela povoação de Serra de Janeanes e de, pela 1ª vez, não nos termos enganado no caminho, lá encontrámos o moínho. Já conhecíamos este moínho da cache Cabeça de Vento em Penacova, (que nos leva ao Museu do Moínho) o qual tem rodinhas. Infelizmente, o seu estado de conservação não aparentava ser o melhor. Quanto à cache, foi fácil dar com ela, praticamente todos ao mesmo tempo. Neste monte também pudemos disfrutar de boas vistas, dada a localização relativamente elevada. Findada a última cache em ambiente mais silvestre e rural que tínhamos planeada para hoje, começámos a pensar em dirigirmo-nos à civilização, pois as outras duas caches que faltavam levavam-nos para mais perto de Condeixa, nomeadamente às Ruínas de Conímbriga e aos restos do castelo de Alcabideque. E, para dizer a verdade, depois da sova que levámos nas Buracas com o nosso corta-mato, não havia tempo para muito mais que estas duas caches de dificuldade baixa. Chegados a Conímbriga, não foi difícil até dar com a cache embora tivéssemos que recorrer à nossa helpdesk habitual (a Diana) para retirarmos um dado necessário para fazer no futuro uma cache mistério. Ainda ponderámos visitar as ruínas, mas tal não se proporcionou já que o tempo com luz disponível já não era muito e estar a visitar um local destes com pressa não é o ideal. Só haveria luminosidade para irmos até Alcabideque tratar da cache de lá. Não foi nada difícil dar com ela, a dificuldade foi deitar-lhe a mão sem que fôssemos notados pelos nativos, dado o local bastante amplo e central da pacata aldeia/vila(?). Felizmente, tínhamos patos e gansos para alimentar, facto que nos tornava bastante inconspícuos. Depois desta, o cansaço acumulado já se fazia notar e como não tínhamos mais tempo nem trabalho-de-casa preparado para mais, rumámos até Coimbra, onde chegámos já ao escurecer. Lanchámos na gelataria (chocolate quente e torrada, que mimo) com roupas sujas com terra e detritos silvestres variados, mas ninguém deve ter ficado muito chocado já que não nos atiraram com coisas. No final, passámos uma tarde bem recheada de aventura e episódios, desde a busca sem norte na Senhora do Círculo, passando pelas voltas nos caminhos de Casmilo e, claro, acabando na nossa incursão radical nas Buracas...

As fotos aqui postadas são versões redimensionadas dos originais, tirados pelo Ludgero ou pela Joana.

sábado, 5 de dezembro de 2009

Saída micológica, Mira

Foi um bocado agreste dado o jantar prolongado da noite anterior, mas lá nos levantámos às 7 da manhã para ir a mais uma saída aos cogumelos. A Sandra fora convidada pela professora Teresa Gonçalves para comparecer a esta saída organizada pela AAMARG, e eu fui por arrasto. Aí pelas 9:30/10:00 já estávamos no campo. Estava muita gente por lá, cerca de 100 pessoas, desde académicos a colectores tradicionais passando por muitos curiosos. Como toda a gente foi dividida em grupos que seriam (supostamente) liderados por um orientador, a Sandra tratou de orientar um grupo e eu segui atrás. Os locais escolhidos foram pinhais perto da costa. Como a velocidade de progressão dos ávidos colectores era muito grande para alguém que tinha toda a pachorra do mundo para ir achando uns macrofungos e fotografá-los, acabei por me separar do grupo e fui vagueando pelo pinhal, fotografando o que achava interessante. Encontrou-se muita coisa, tanto comestível como não comestível, desde vários Amanita, montes de Boletales (Suillus, Xerocomus e até Boletus edulis), Sarcodon imbricatus, Gymnopilus spectabilis, bastantes Tricholomas (flavovirens - míscaros, caligatum, saponaceum, etc.), Lycoperdon, Thelephora terrestris, Hygrocybe, Macrolepiota procera e rhacodes, and so on and so on.

Já na parte final da saída, a Sandra tornou-se o centro das atenções de todos ao ter encontrado uma mortal Amanita phalloides, já que foi a única a ser encontrada e era um espécime digno de ser fotografado num guia de campo.
Provavelmente o "bicho" que mais gostei de ver foi um Myxomycota que a Sandra encontrou também, talvez da espécie Leocarpus fragilis. Depois do campo, os presentes tiveram a oportunidade de ir almoçar a um restaurante que nos serviria vários cogumelos. Foi-nos dado a provar Hydnum repandum (nada de mais, a meu ver), Cantharellus lutescens (consistência diferente, parecia marisco, é bom), Cantharellus cibarius (parecia bom, mas o sabor estava difuso pois este vinha acompanhado de molho de natas) e finalmente o prato era arroz de carne cozida com míscaros. Estava bom, mas não era nada de mais. A melhor surpresa foi o Cantharellus. Depois do almoço, seguiu-se uma sessão de apresentações orais sobre temas básicos inerentes à micologia, como colher, como identificar um macrofungo perigoso e/ou comestível, etc. (o habitual para os curiosos que frequentam estas actividades). A identificação dos fungos recolhidos no campo também foi efectuada com recurso a guias, quase todos da Sandra e da prof. Teresa. Ficámos um bocado ainda a identificar cogumelos aí até as 18:00, altura em que já estávamos a ficar cansaditos e decidimos ir para casa. Ainda serviriam um lanche com os cogumelos comestíveis capturados na manhã, mas decidimos não experimentar o lanche alternativo e lá viemos para casa.

terça-feira, 1 de dezembro de 2009

Aranha? Não, Opilione!

Como já falei várias vezes nestes bicharocos, pode ter acontecido que o leitor se tenha apanhado desprevenido e tenha pensado "o que é um Opilione?"
Ora, um Opilione é um primo das Aranhas, sendo também pertencente à classe Arachnida (os Opiliones e as Aranhas pertencem a duas ordens distintas). Á primeira vista uma pessoa inexperiente no campo pode confundir o dito opilione com uma aranha. Tal como ela, tem 4 pares de patas, pedipalpos e quelíceras, mas, ao invés, as suas duas secções corporais (o prossoma e opistossoma) estão unidas numa só. Já as aranhas, possuem essas duas distintas secções bem visíveis, já que estão separadas por uma pequena junção, o pedicelo.
Os ingleses chamam a estes animais "harvestmen" porque antigamente se pensava que estes armazenavam comida para se juntarem em grandes grupos (podem ser encontradas grandes aglomerações de algumas espécies de Opiliones em locais húmidos e protegidos, mas provavelmente isso deve-se a factores ambientais ou de protecção contra predadores).
Ao contrário das aranhas, estes animais não possuem glândulas de veneno, não representando qualquer ameaça para um humano. A sua única defesa contra predadores são secreções repelentes que eles libertam por uns orifícios na frente do corpo.
A nível de formas que se podem encontrar e distinguir no campo, os mais comuns são os Phalangiidae e nomeadamente a espécie Phalangium opilio, que é ubiquista, e que tem normalmente o aspecto do Opilione no esquema seguinte. O corpo de um adulto deste tipo mede mais coisa menos coisa 7 mm, sendo as patas o que mais salta à vista. Também de patas compridas, mas com quelíceras grossas e grandes, existem os Ischyropsalis (família Ischyropsalididae, dizer à primeira sem gaguejar!), que parecem autênticas retro-escavadoras. Na viagem à Madeira, encontrámos alguns Ischyropsalis nos túneis da Levada do Caldeirão Verde, apanhei alguns na esperança que fosse uma espécie endémica, mas na verdade trata-se de I. hispanica, que fora introduzido na Madeira pelo Homem. Aqui uma macro em grande estilo de um I. hellwigi.No entanto, há também grupos mais pequenos, como os membros da família Nemastomatidae, que atingem tamanhos corporais de cerca de 3 ou 4 mm, e as suas patas qualquer coisa como 1 a 2 cm de comprimento. Aqui um Nemastoma na wikipédia. Também pequenos e de patas curtas existe um género muitíssimo comum em armadilhas pitfall, o género Homalenotus, cujas espécies não são normalmente de fácil identificação; estes pequenos Opiliones são característicos pelas suas protuberâncias espinhosas e por muitas vezes terem restos de sedimentos em cima do corpo. Ainda outro formato diferente destes curiosos animais é o presente na família Trogulidae, os opiliones achatados, que muitas vezes também se encontram com bocados de sedimento por cima do corpo: aqui um Trogulus.
A nível de diversidade este grupo não é tão diverso como as aranhas (>800 spp. em Portugal), rondando as 40 spp., sendo que como se trata de um grupo menos estudado que as aranhas, é provável senão certo que hajam mais espécies por relatar e por descrever.
Ah é verdade! Já me esquecia desta: não confundam os Pholcus phalangioides (uma aranha) que encontram nas vossas casas com Opiliones. Além das divisões do corpo, os Opiliones não fazem teia ao contrário das aranhas. E como o P. phalangioides também possui patas muito finas e compridas (e com tarsos pseudo-segmentados) esta é uma confusão habitual.
Bem, espero ter deixado algumas noções sobre estes parentes das aranhas. Não falei de todos os grupos que existem em Portugal, mas certamente que falei nos principais.