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terça-feira, 27 de abril de 2010

Póvoa Dão II

Depois de saber que a minha candidatura para continuar os estudos em Espanha não foi aceite, achei por bem ir desanuviar com a Sandra um fim-de-semana na Póvoa Dão, ajudando-a no trabalho que ela está lá a desenvolver envolvendo macrofungos (a.k.a. cogumelos). Acabou por não ser tão relaxante quanto isso, já que tive de perder 1 dia na estrada pela zona de Viseu à procura de um local com Internet, de modo a poder tratar de papeladas para um trabalho.
Porém, no sábado e na segunda-feira (24 e 26) deu para saborear o campo, em todo o seu esplendor primaveril, com os pássaros a cantar (cu-cu, cu-cu...), o sol a bater e as flores a enfeitar...
Em relação ao trabalho de campo da Sandra, ainda se encontraram algumas coisas interessantes como um Helvella solitaria (foto), Amanita ovoidea, Polyporus squamosus, Bovista sp., etc., muito provavelmente devido ás chuvas da semana passada.

Obviamente que eu cá também não deixaria de procurar umas aranhas com um tempo primaveril destes, ainda por cima num local onde não costumo andar. Não apanhei assim tantas aranhas quanto isso, mas devo salientar que uma das espécies que capturei trata-se de Philodromus pinetorum, uma espécie descrita de várias zonas da bacia mediterrânica (França, Grécia, etc.) no ano passado, pelo que o facto de ter encontrado o bicho já pode dar uma nota científica para publicar; um animal notável, pois pertence ao grupo de espécies dentro do género Philodromus que se encontram nas cascas de árvores, camuflando-se na sua superfície através da sua postura e cores miméticas. Além disto, encontrei um macho de Cheiracanthium muitíssimo parecido com striolatum mas com uns pormenores da sua genitália diferentes, curioso... Nota ainda para as várias Micaria brignolii que fugiam pelas mesmas cascas de pinheiros onde se podia encontrar os Philodromus pinetorum, por entre os carreiros de formigas Crematogaster scutellaris. Ainda consegui capturar 2 machos, mas estes foram apenas uma pequena porção dos espécimes avistados e que fugiram com sucesso.

No domingo, como disse lá atrás, fomos até Viseu, procurar um sítio com acesso à Internet. Como quando precisamos que as coisas funcionem como deve de ser não funcionam, ora, no Palácio do Gelo não conseguimos ligar à wireless e tivemos que procurar uma alternativa. Quem nos safou foi a nossa amiga Lara Teixeira, que nos ofereceu uma visita à sua casa (e quinta) repleta de animais. Eram cerca de 10 cães, 17 gatos, 1 coelho, porquinhos-da-Índia, 1 peixe, 6 tortugas, 3 gerbos e uns anfíbios, tanto Anuros como Urodelos, num tanque à saída de uma mina de água. Enquanto passeávamos pela quinta propriamente dita, ainda fomos brindados com o vôo de algumas Iphiclides pheisthamelii, sempre exuberantes. Foi uma tarde prazenteira a partir da hora de almoço... :)

Na Póvoa Dão ainda há muito terreno que precisa de ser tratado para estar pronto para os turistas da natureza e uma das coisas que me irrita são as zonas infestadas com acácias: odeio acácias! Sempre que o ritmo de caminhada não era demasiado rápido para tal, lá arrancava uma ou outra. Na foto, eu com um dos meus troféus, que nem pescador (de notar a raíz lateral)...

sábado, 5 de dezembro de 2009

Saída micológica, Mira

Foi um bocado agreste dado o jantar prolongado da noite anterior, mas lá nos levantámos às 7 da manhã para ir a mais uma saída aos cogumelos. A Sandra fora convidada pela professora Teresa Gonçalves para comparecer a esta saída organizada pela AAMARG, e eu fui por arrasto. Aí pelas 9:30/10:00 já estávamos no campo. Estava muita gente por lá, cerca de 100 pessoas, desde académicos a colectores tradicionais passando por muitos curiosos. Como toda a gente foi dividida em grupos que seriam (supostamente) liderados por um orientador, a Sandra tratou de orientar um grupo e eu segui atrás. Os locais escolhidos foram pinhais perto da costa. Como a velocidade de progressão dos ávidos colectores era muito grande para alguém que tinha toda a pachorra do mundo para ir achando uns macrofungos e fotografá-los, acabei por me separar do grupo e fui vagueando pelo pinhal, fotografando o que achava interessante. Encontrou-se muita coisa, tanto comestível como não comestível, desde vários Amanita, montes de Boletales (Suillus, Xerocomus e até Boletus edulis), Sarcodon imbricatus, Gymnopilus spectabilis, bastantes Tricholomas (flavovirens - míscaros, caligatum, saponaceum, etc.), Lycoperdon, Thelephora terrestris, Hygrocybe, Macrolepiota procera e rhacodes, and so on and so on.

Já na parte final da saída, a Sandra tornou-se o centro das atenções de todos ao ter encontrado uma mortal Amanita phalloides, já que foi a única a ser encontrada e era um espécime digno de ser fotografado num guia de campo.
Provavelmente o "bicho" que mais gostei de ver foi um Myxomycota que a Sandra encontrou também, talvez da espécie Leocarpus fragilis. Depois do campo, os presentes tiveram a oportunidade de ir almoçar a um restaurante que nos serviria vários cogumelos. Foi-nos dado a provar Hydnum repandum (nada de mais, a meu ver), Cantharellus lutescens (consistência diferente, parecia marisco, é bom), Cantharellus cibarius (parecia bom, mas o sabor estava difuso pois este vinha acompanhado de molho de natas) e finalmente o prato era arroz de carne cozida com míscaros. Estava bom, mas não era nada de mais. A melhor surpresa foi o Cantharellus. Depois do almoço, seguiu-se uma sessão de apresentações orais sobre temas básicos inerentes à micologia, como colher, como identificar um macrofungo perigoso e/ou comestível, etc. (o habitual para os curiosos que frequentam estas actividades). A identificação dos fungos recolhidos no campo também foi efectuada com recurso a guias, quase todos da Sandra e da prof. Teresa. Ficámos um bocado ainda a identificar cogumelos aí até as 18:00, altura em que já estávamos a ficar cansaditos e decidimos ir para casa. Ainda serviriam um lanche com os cogumelos comestíveis capturados na manhã, mas decidimos não experimentar o lanche alternativo e lá viemos para casa.

segunda-feira, 23 de novembro de 2009

Póvoa Dão

No passado fim-de-semana fui com a Sandra até à Póvoa Dão, uma pitoresca povoação a alguns km de Viseu. Este local tem sido restaurado e terrenos circundantes têm sido restaurados por uma conhecida empresa de construção e como andam a fazer o levantamento da diversidade local em conjunto com algumas Universidades, coube à Sandra tratar dos macrofungos da zona. Aproveitei para colaborar no trabalho de campo e ir passear um bocado. Tínhamos boas condições já que a empresa está a explorar a povoação para turismo rural e de habitação e tivemos à nossa disposição uma casa onde ficar e refeições.

No sábado de manhã, partimos cedinho de Coimbra, juntamente com um colega nosso (José Cerca) do 2º ano que também está a colaborar com o projecto, mas na parte das plantas. Depois de nos instalarmos devidamente, lá nos pusemos a procurar coisas, principalmente fungos. No final dos 2 dias de fim-de-semana tínhamos avistado e recolhido uma grande panóplia de macrofungos: desde os "corais", "taças", "prateleiras", fungos gelatinosos (aquele Tremella mesenterica amarelo ali na foto) passando por quase todas as famílias existentes em Portugal de cogumelos clássicos de chapéu e pé, e acabando nos fungos "bola", só para citar alguns tipos (encontrámos até um Myxomyceto!). No que diz respeito à sua "culinaria-bilidade" alguns comestíveis (poucos), muitos tóxicos e alguns até mortais, como a Amanita muscaria (o vermelho na foto) ou a A. phalloides!
De assinalar também que no sábado apanhámos uma grande molha... Já estávamos de sobreaviso por causa das previsões meteorológicas, de modo que todos tínhamos algumas peças impermeáveis vestidas mas mesmo assim, acabámos o campo às 15:30 porque já começávamos a estar molhados (eu em particular diga-se...) de um modo bastante significativo.

Como é praticamente impossível eu andar no campo sem pelo menos virar uns calhaus ainda trouxe alguns aracnídeos e nem tudo foi banal já que pela primeira vez no campo encontrei Amaurobius em Portugal, já tinha encontrado A. similis em Espanha mas em Portugal nunca tinha visto. Desta feita, foi o A. occidentalis, já citado para o país e presente no Norte. Também encontrei um refúgio de Atypus affinis, uma aranha bastante "primitiva" que existe em Portugal, mas não recolhi o animal pois não valia a pena; o seu refúgio é subterrâneo, a aranha passa quase toda a sua vida dentro daquele tubo de seda coberto com restos de terra e de manta morta, saindo apenas para dispersar quando juvenil ou quando um macho adulto abandona o refúgio para ir achar uma fêmea e o método pelo qual caça as suas presas inspira uma cena de terror, já que as presas são literalmente trespassadas pelas enormes quelíceras desta aranha, de dentro para fora do tubo sedoso, e depois puxadas para baixo (para depois a abertura ser remendada a pronto pelo Atypus) para serem devoradas. A nível de aranhas interessantes, foi só. Também trouxe alguns Opiliones e penso que poderei ter capturado uma espécie que não estava confirmada para Portugal, Leiobunum rotundum, mas ainda tenho que confirmar isto quando enviar o bicho a um investigador espanhol que é especialista em Opiliones (e tenho que fazer um post a explicar o que é um Opilione, já que poderei falar neles mais vezes).